Sentenças

Estes tempos são tempos de caos; as opiniões são uma disputa; os partidos são uma confusão; ainda não foi criada uma linguagem para as novas idéias; nada é mais difícil do que dar uma boa definição de si mesmo em religião, em filosofia, em política. Sente-se, conhece-se, vive-se e, se necessário, morre-se por uma causa, mas não se pode denominá-la. É uma problema desta época classificar as coisas e os homens… O mundo embaralhou o seu catálogo.

Lamartine (1790-1869)

Publicado em: on 15 15UTC Outubro 15UTC 2009 at 1:14 Deixe um comentário
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O Heavy Metal Sob um Olhar Etnográfico

No inicio da década de 70 uma banda lançou um disco estranho. A capa consistia na pintura de uma bruxa em frente a uma velha mansão — tanto o debut quanto o conjunto eram batizados de Black Sabbath. Para o ouvinte daqueles anos, familiarizado com blues, folk e o rock de Steppenwolf e Led Zeppelin, com certeza deveria ter estranhado em demasia a faixa de abertura daquela invulgar bolacha; toda composta na tenebrosa escala Diabolus in Música, a triatônica, e cujas letras relatavam o horror de um homem comum que presenciara, por acaso, a realização de um ritual de ocultismo — aquele foi a criação daquilo que ficaria conhecido como heavy metal.

Desde os primeiros riffs tenebrosos do Black Sabbath, a musica pesada tomou forma nos anos setenta, explodiu nos oitenta, entrou em decadência na década de noventa e volta de novo com toda força no principio do novo milênio. São, ao todo, quase quarenta anos de guitarras estridentes, baterias destruidoras e uma variedade tão grande de estilos e tendências que até mesmo para o admirador mais assíduo fica difícil conhecer a musica em sua completude.

Não há dúvida que a complexidade do heavy metal o transformou numa das inúmeras e mais complexas sub-culturas abrigada sob o extenso guarda chuva da cultura ocidental. Portanto, como fenômeno cultural e sociológico, faltava-lhe um estudo rigoroso que examinasse seus elementos mais básicos — isto é, uma analise totalmente despojada de dogmatismo e preconceito conservador com que alguns sacerdotes protestantes lançaram mão ao tentar desnudar a mensagem “oculta do rock” em livros de gosto duvidoso. O que faz com que este estilo tenha hoje uma legião de admiradores? O que estes fãs, músicos e produtores possuem em comum? O que a musica representa para eles? Quais são as verdadeiras raízes do Heavy Metal? Porque ele explora temas considerados tão nefastos para o homem comum? E por que a sociedade em geral o vê com tantas reservas e restrições? Estas incógnitas são investigadas pelo antropólogo canadense Sam Dunn, um fã devotado do heavy metal e diretor do documentário Metal: a headbanger’s Journey.

Para a sua pesquisa, Dunn lança mão do já clássico método da observação participante: indo aos shows, entrevistando os fãs e músicos como Lemmy Kilmister, do Motorhead; Tom Arraya, do Slayer; Bruce Dickinson, do Iron Maiden e Ronnie James Dio, do Heaven And Hell; além de sociólogos, historiadores e estudiosos da musica.

O antropólogo Sam Dunn

Ao analisar as raízes do estilo, Dunn volta até o século XIX, visitando compositores como Richard Wagner e o vocal operistico das orquestras da época, introduzido mais tarde no Metal por nomes como Ian Gillan, R. J. Dio, B. Dickinson e Rob Halford, resultando num impacto enorme dentro da musica — hoje, certas bandas irritantes de metal melódico, na incapacidade de criar algo realmente original, imitam descarada mente a técnica vocal destes mestres da voz.

Outros compositores clássicos que também exerceram grande influência para o heavy metal, embora no documentário não sejam mencionados, foram Antonio Vivaldi, Sebastian Bach, Edward Grieg e Paganini — guitarristas como Richie Blackmore e Eddie Van Haley foram os primeiros a fundir o erudito com o rock.

Dunn poderia ter sido mais profundo ao abordar a questão da musica clássica se entrevistasse a banda que radicalizou a fusão: os finlandeses do Apocalyptica.

O blues também foi um dos elementos na criação no Heavy Metal. Tommi Iomi, do Black Sabbath, afirma no documentário que muito antes da banda se decidir pelo estilo que a consagrou, era um típico conjunto de blues e jazz. Nem preciso mencionar, mas quase 100% dos solos de Iomi e uma grande quantidade de bandas de hard rock e metal possuem suas musicas calcadas na escala criada pelos músicos de blues: a popularíssima pentatônica.

Outro ponto importante é ser o Heavy Metal um estilo gerado principalmente nas periferias, nos bairros de classe baixa das cidades inglesas ou das metrópoles americanas. Não foi sem razão que Bruce Dickinson disse que o metal era a opera da classe operaria. Um fato ilustrativo é o relato de Lemmy sobre reunir-se toda a noite, durante sua infância, com seus amigos, em frente a uma cabine telefônica para contar histórias. Motivo? Era a única fonte de luz disponível na comunidade…

Ronnie James Dio esclarece a origem do famoso símbolo dos “chifres”. Sua origem remonta ao folclore italiano, chamando-se originalmente de Meloik, era feito por sua avó quando passeava com o pequeno Ronnie James pelas ruas e via uma pessoa de quem desgostava, usava-o como uma maneira supersticiosa de espantar o mau olhado, também podia ser usado para jogar emanações negativas em alguém; Dio admite não ter efetivamente criado o símbolo, mas o aperfeiçoou e tornou-o uma marca registrada não só do Metal, mas de todo o rock.

Estranho foi quando Tom Arraya admitiu ter uma formação católica, ao mesmo tempo em que lança um disco intitulado God hate us All. A escusa para justificar esta ambigüidade simplesmente não convence. Muito mais coerente com sua arte foi seu companheiro de banda Kerry King: “Gosto de mandar bala na religião porque é a maior máquina de lavagem cerebral existente e totalmente legalizada nos Estados Unidos.”

O capitulo destinado a investigar o Black Metal Norueguês fica sujeito a restrições. Sam Dunn se detém apenas aos incidentes em que extremistas queimaram dezenas de igrejas no inicio dos anos noventa. O erro é corrigido nos extras, em que há um documentário destinado á investigação do Norwein Black Metal. O antropólogo faz bem em rastrear-lhe as partes fundamentais: o orgulho da Noruega em fazer parte de uma cultura de “gigantes” — a cultura vinking — e o ódio contra tudo que deturpe o sentido real dessa cultura, seja o capitalismo, o socialismo, o cristianismo, a democracia ou qualquer uma das instituições advindas da modernidade. O metal negro encaixa-se na definição de fundamentalismo usada pelos sociólogos Anton Shupe e Jeffrey Hadden, que o classificam como um movimento: “que visa recuperar a autoridade sobre uma tradição sagrada que deve ser reintegrada como antídoto contra uma sociedade que se soltou de suas amarras institucionais”. Curiosamente, a definição também tem muito sentido quando usada para descrever o fundamentalismo protestante dos Estados Unidos…

O primeiro disco do Black Sabbath

O primeiro disco do Black Sabbath, lançado em 13 de Fevereiro de 1970.

Uma outra falha de Sam Dunn foi não ter feito a ligação entre heavy metal, literatura e cinema. É sabido que muitos músicos tiraram os temas sombrios de escritores como Edgar Allan Poe, Lord Byron, Novalis, Stephen King, Charles Baudelaire, H.P. Lovecraft, Willian BlackWood e escritores especializados em fantasia, como J.R.R TolkienSteve Harris, por exemplo, é um grande leitor de poesia inglesa. Quanto a sétima arte, filmes de terror como O Exorcista, Psicose e O Homem de Palha foram muito influentes na formação do gênero.

As falhas da pesquisa não tiram o brilho nem o mérito do jovem antropólogo Sam Dunn, que responde de maneira satisfatória as perguntas que se propôs solucionar. A Headbanger’s Journey é um belo documentário que não vai interessar apenas aos fãs do som pesado, mas todo e qualquer estudioso da história da música ocidental.

Publicado em: on 26 26UTC Setembro 26UTC 2009 at 19:59 Deixe um comentário
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Z da Zona de Manaus: a Antiga

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Thiago de Mello*

Não tinha a fama nem o prestígio da atual. E era genuinamente cabocla, embora em seus tempos dourados esbanjasse matéria-prima importada de vários países da Europa. É verdade que nunca chegou a ser de atração nacional, como a de agora. Mas era indiscutivelmente mais franca. Aberta a quem chegasse, não fazia acepção de pessoas: desde que fossem masculinas, donas de muita disposição e de um mínimo de capital. Era a zona das mulheres. De mulheres da vida, se dizia. Ou de mulheres que faziam a vida, expressão que sempre achei de sortilégio. Havia quem chamasse, nariz orgulhoso e torcido, a zona da prostituição, as ruas das raparigas.

Moça da família, os pais não permitiam que passassem pelos quarteirões daquelas ruas onde se exercia a mais antiga profissão do planeta, nas casas do meretrício. Perdão, do baixo meretrício, era assim que diziam, porventura a indicar a existência de um meretrício mais alto, quer dizer, mais caro e mais escondido. Ou talvez se tratasse de referência saudosa ao tempo das francesas de vestido longo e decotado da Pensão Floreaux, na Rua Epaminondas, ou das que chegavam elegantíssimas e perfumadas, já madrugada alta, acompanhadas de cavalheiros de casaca, para uma ceia com champanhe no Bar Alemão ali na Marechal Deodoro à época do esplendor da borracha.

Para o povo a Zona era mesmo e simplesmente a zona, tout court, sem adjetivos. Ficava bem no centro da cidade, fraternalmente concentrada em trechos de quarteirões de suas importantes. O eixo era a Saldanha Marinho: a mesma rua que abrigava moradias sóbrias e moradores austeros, abria-se para a vida alegre das pensões a partir da rua Joaquim Sarmento e só ia terminar lá na rua da Instalação, nos procuradíssimos bordeizinhos do último quarteirão enladeirado. Da Saldanha Marinho a Zona ganhava assas para as transversais Joaquim Sarmento e Logo D’Almada, um pouco para o lado da Sete de Setembro, outro pouco para as bandas da 24 de Maio. Casinhas da alvenaria colonial, soalhos de madeira que cantavam.

Mal a tarde começava a cair, a Zona, qual mulher sadia que desperta a dengosa se espreguiça, dava começo aos seus macios movimentos, com a chegada dos primeiros freqüentadores a fanar pelas esquinas e das primeiras caboclas, cabelos ainda molhados, ao parapeito das janelas. Só quando era já noite mesmo é que, até então mal-entreabertas, escancaravam-se as portas ou meia-portas, sobre as quais não faltava a famosa lanterna vermelha, em cujo brilho vagamente ardia um tição de tristeza.

O canto da Instalação com a Saldanha Marinho não marcava, porém, o limite da Zona, que a atravessava para alcançar outras ruas boêmias: a Itamaracá, a Frei José dos Inocentes. Por toda década de quarenta a Zona teve como lugar principal de bebida e de baile o Cabaré Chinelo, sábio e delicioso nome que o povo encontrou para substituir o Hotel Cassina, que no mesmo e bonito prédio funcionou até o fim da nossa belle epoque, freqüentado sôo por gente de finas libras esterlinas, não importava se oriundas das algibeiras de grosseiros coronéis de barranco.

Pensão da Lola: Ninguém pode negar que por todos aqueles anos quarenta a pensão da Lola, na Saldanha Marinho, era a melhor de todas as casas da Zona. É juízo unânime dos bons freqüentadores daquelas ruas. A numerosos deles agora consultei, e de todos a Lola teve o voto, ao qual com iniludível pena, não pude juntar o meu. Para que mentir? A verdade é que, naquelas noites, apenas estive perto, nunca tive acesso à boca da urna.

Era italiana, de sobrenome Ferdi. Alguma vez a contemplei descendo a Avenida: era elegante, alta, muito digna de leque abanando o rosto claro. Cuidava com esmero de sua moças, vigiava-lhes o asseio e a saúde. De índole romântica, sabia de cor o seu Dante, atirava de relance para a sua mesa, com abajur de centro, sempre bem concorrida, uma estrofe de Petrarca. Em contradição, ou talvez por coerência, a nenhuma das moças permitia histórias inventadas, choramingas, a justificar o passo mal dado que lhes abrira o caminho para a vida “não me venham com histórias. Estão aqui porque querem, estão aqui porque gostam. Fazem muito bem. Honrem a profissão. E tratem de não enganar ninguém”. Lola Ferdi morreu rica e triste, no começo dos 50. Famoso advogado de Manaus, leal amigo da dona-de-pensão presume-se que amigo de todas as horas, cumpriu o que ela, em testamento, lhe ditou: herdou os seus bens. Consta que alguma parcela ficou destinada ao amparo de duas ou três de suas melhores moças já fatigadas.

*Escritor amazonense, autor de diversas obras de reconhecido valor mundial. Destaque para – Manaus, Amor e Memória, Rio de Janeiro: Philobiblion, 1984. (p.247/49).

Publicado em: on 28 28UTC Julho 28UTC 2009 at 16:11 Deixe um comentário
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A Escravidão nos Seringais

Servidao Humana na SelvaVim pro Amazonas ganhar dinheiro, e não ganhei foi nada… O negócio da seringa só dava pra gente se aviar… Vivia naquela ilusão… Se eu tivesse no Ceará não queria saber mais do Amazonas.

Relato de um Seringueiro do Rio Madeira

Michel Foucault, influenciado por Friedrich Nietzsche, afirmara que por detrás da pompa dos hinos nacionais cantando a glória do nascimento da pátria, se esconde milhares de vidas sacrificadas nas guerras de unificação; e por detrás do mito da criação do mundo, encenando a beleza do jardim do Éden e a ingênua harmonia entre Adão e Eva, se esconde, na verdade, o parentesco com o macaco e, por sua vez, o cinzento laço com o verme…

A história, segundo o pensador francês, está repleta destas lendas que escondem um lado obscuro no fundo dos seus épicos versos, criados em favor de uma determinada gama de interesses. Cabe ao sociólogo e ao historiador desvendá-los — efetuando a arqueologia dos períodos históricos e das relações sociais.

Um dos exemplos mais típicos no Amazonas de fatos históricos mascarados por interesses escusos são as propagandas e historiografias oficiais com relação ao período áureo da borracha, mostrando-o como um tempo de grandes realizações, tanto no terreno das obras públicas quanto no âmbito social, ressaltando a riqueza produzida neste período e o aperfeiçoamento cultural pelo qual Manaus passara (a belle epóque, que nosso governo teima em reproduzir, de forma caricatural, em festivais de opera) nos quase trinta anos de pulsação da economia gomífera, como um dos períodos dos mais interessantes que a Paris dos Tristes Trópicos já teve.

Tal forma de ver a historia e as sociedades, tão comum em historiadores a direita do espectro político e na propaganda de governos populistas, interessados em criar uma bandeira pela qual possam arrancar certos dividendos políticos, nada mais é do que uma forma de mascarar a verdadeira e perversa dinâmica da qual é regida os períodos históricos e, em questão, a economia extrativa. Longe de ser um período de requinte social e cultural, o fausto da economia gomífera foi caracterizada pela exploração compulsória de homens e mulheres sob o regime hediondo do aviamento, e pelo fato absurdo de que, como dissera Euclides da Cunha, o homem trabalhava para escravizar-se.

Muitos já foram os estudos efetuados sobre o período áureo da economia gomífera, principalmente do ponto de vista histórico — a Ilusão do Fausto de Edinea Mascarenhas Dias é um dos exemplos mais famosos. Faltava, entretanto, um estudo de precisões mais sociológicas que enfocasse o modo de produção extrativista a partir não de acontecimentos ou datas, mas a partir das suas relações sociais e de como estes homens se comportavam frente à dicotomia de uma floresta cheia de perigos e de um sistema de compra e troca tão impiedoso.

Servidão Humana na Selva: O Aviamento e o Barracão nos seringais na Amazônia, de Carlos Correia Teixeira, vem tapar este buraco na sociologia sobre o modo de produção extrativista e se juntar ao seleto hall de obras que pensam a Amazônia criticamente, em contraposição a forma linear e conservadora de pensadores convencionais como André Vidal de Araújo, Álvaro Maia ou Samuel Bechimol. Apesar de ser um estudo efetuado na década de setenta, foi tese de mestrado do escritor, Servidão Humana está longe de ser um estudo defasado, longe disso, é um ensaio que vai até o cerne do acontecimento histórico, achando as descontinuidades das relações do seringal, destrinchando seu lado cinzento, recompondo arqueologicamente suas contradições, os dramas do trabalhador da seringa, seus sofrimentos e mesmo seus raros momentos de felicidade, sentindo-se um verdadeiro artista ao defumar a borracha: “é o maior prazer do mundo!” era a frase de um trabalhador contida do livro.

Dialogando com varias vertentes da sociologia, como por exemplo com o esquema de dominação patrimonial de Max Weber, o autor, contudo, centra-se no legado teórico de Karl Marx para a sua análise de cada um dos aspectos das relações tecidas no seringal.

Muito interessante é a afirmação de que o barracão é a nossa versão dos engenhos, criando uma complexa rede de relações sociais que ainda não foram devidamente estudadas — pelo menos no que tange a sociologia.

O seringal, segundo Carlos Teixeira, mesmo depois de quase um século passado desde o fim da preponderância extrativista, sua organização persistiu e ultrapassou mais de um século.

Mais de trezentos mil nordestinos vieram para a região Amazônica a partir da década de setenta do século XIX. Boa parte destes pobres diabos provenientes do Ceará — iludidos com a promessa de enriquecimento fácil. Contudo, quando aqui chegavam, o véu de suas ilusões era brutalmente estraçalhado pela cruel realidade de ter estarem sujeitos a um regime que, já os fazendo endividados desde o momento em que ali chegavam, os fazia trabalhar mais de dezoito horas por dia.

Sozinhos nos seringais, sem uma legislação trabalhista ou qualquer autoridade que pudesse inferir por eles, os seringueiros eram largados aos próprios caprichos do seringalista, que os explorava desde a adulteração dos preços das mercadorias vendidas no barracão, até nos pesos da borracha quando de sua venda ao senhoril. Muitas eram os historias de abusos e crueldades contra o seringueiro que tentasse fugir ou cogitasse vender a borracha ao regatão — vale dizer que este era um fator de instabilidade ao poder tirânico do seringalista, travar negócios clandestinamente com o seringueiro. Teixeira menciona uma história, contada pelos seringueiros mais antigos, de um grande buraco cheio de cobras onde o patrão costumava jogar aqueles que fizessem frente ao seu poder.

Os seringalistas, verdadeiros senhores feudais na selva, nunca tiveram, de fato, uma mentalidade empreendedora. Sua forma de gerir seus negócios estava muito mais para um pré-capitalismo rudimentar de típico de nobrezas decadentes. Não se preocupavam em aperfeiçoar as técnicas de trabalho em seus seringais. A situação como estava já os satisfazia. Hauriam enormes lucros de suas propriedades, gozavam de enorme conforto, tinham ao redor de si esposas, servos e amantes. Seus filhos estudavam nas melhores escolas do país e do exterior. No final de cada fabrico iam gastar suas fortunas nos centros econômicos do Brasil ou da Europa. Tinham o poder de colocar seus apadrinhados nas esferas de poder para que defendessem seus interesses frente ao Estado. Eram na verdade, uma casta parasita que desfrutava os privilégios de uma economia predatória e de enclave, cujos resultados estavam voltados para fora — não é assim o mesmo com o nosso decadente pólo industrial?

Durante a época da pesquisa o escritor detectou que ocorria uma flagrante mudança nas relações produzidas no seringal. Outrora predominantemente as relações do toco: em que o seringueiro tinha uma casa disponibilizada pelo patrão, assim como as estradas, equipamento e mercadorias para consumo e de sua família, assim deveria fornecer determinada quantidade de borracha por fabrico ao senhoril; entretanto, o toco vinha a transmutar-se em regime de gleba, onde o seringueiro passa a arrendar uma faixa de terra com sua família e, além de extrair a borracha, desenvolve a agricultura, pagando ao seringalista o aluguel desta em víveres ou em dinheiro.

A servidão humana, infelizmente, não era uma característica típica nos seringais da Amazônia, estendendo-se também para outros ramos da atividade capitalista, como por exemplo, o grande latifúndio monocultor do sul do Pará e sul do Amazonas, onde milhares de vidas são reduzidas e reles condição de coisa.

Quem sabe para a próxima edição o autor providencia um capitulo sobre a situação atual dos seringais estudados no livro, Juma e Três Casas, e outro sobre formas de organização sindical dos seringueiros na região estudada — a região do Rio Madeira, onde também nascera Carlos Teixeira.

Servidão Humana na Selva torna-se, desde seu lançamento, uma referencia obrigatória para quem estiver interessado em estudar os seringais, suas contradições, desmandos e crueldades com que essa variante do modo capitalista de produção subordina o homem.

Sentenças

“Um conservador é um homem que é muito covarde para lutar e muito gordo para correr.”

Elbert Hubbard (1856-1915)

Publicado em: on 19 19UTC Junho 19UTC 2009 at 15:37 Deixe um comentário
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