“Posso compreender que um homem aceite as leis que protegem a propriedade privada e admita sua acumulação, desde estas circunstâncias ele próprio seja capaz de atingir alguma forma de existência harmoniosa e intelectual. Parece-me, porém, quase inacreditável que, um homem cuja existência se perdeu e abrutalhou por força dessas mesmas leis possa vir a concordar com sua vigência.”

Oscar Wilde

O que faz de um autor um clássico é justamente densidade de sua obra, capaz de responder as questões mais angustiantes da sociedade ou as aspirações metafísicas dos homens.

No caso do irlandês Oscar Wilde (1854-1900) e da obra em questão, “A alma do homem sob socialismo”, está exatamente nessa capacidade de o escritor ter identificado e dissertado com mestria sobre uma das questões mais relevantes de seu tempo, e talvez até do nosso: a desigualdade social.

Com um estilo claro, conciso, quase jornalístico e repleto de fases de efeito, “o homem sob socialismo” é uma obra que, apesar de escrita a mais de cem anos, possui uma atualidade ímpar ao identificar os principais problemas do capitalismo: a concentração de renda, a transformação dos trabalhadores em peças de trabalho…

Longe de ser uma obra panfletária, Wilde já alertava para os principais problemas que os movimentos de esquerda enfrentariam, o autoritarismo. A única saída para evitar que os movimentos contra hegemônicos não resvalassem numa ditadura da igualdade seria a preservação do individualismo, não o individualismo burguês, que para o autor não passava de uma forma mesquinha de egoísmo, mas um individualismo que, ao mesmo tempo que desse a consciência da responsabilidade pública ao homem, também lhe mostrasse o caminho para desenvolver de forma plena a sua personalidade: “Conhece-te a ti mesmo, estava escrito ás portas do mundo antigo; Sê tu mesmo, deverá estar escrito ás portas do novo mundo.” A opinião do autor sobre a concepção do mundo socialista aproxima-se muito da visão da utopia comunista, proposta pelo velho Marx.

Mas como será possível o homem alcançar o desenvolvimento pleno do seu individualismo? Primeiramente seria necessário a supressão da propriedade privada, pois obscureceu a visão dos homens confundindo-os com o que eles possuem. Deve-se Tornar toda propriedade um bem público, providenciando com que todos tenham o suficiente para suprir as suas necessidades, “então ninguém mais interferirá na vida de ninguém.” O segundo seria a adoção de todos os homens de sensibilidade artística, o único caminho para a expressão plena da individualidade.

Quanto ao Estado? Wilde tem uma noção helenística a respeito do homem, que para ele deveria se encarregar apenas da contemplação. As tarefas enfadonhas e desonrosas caberiam a esfera publica: “O Estado deve fazer o que é útil, o homem deve fazer o que e belo.”

Wilde atribui a maioria dos crimes á questão da pobreza, e diz ironicamente: “A fome, e não o pecado, é o autor do crime na sociedade moderna, Eis por que nossos criminosos são, enquanto classe, são tão desinteressantes do ponto de vista psicológico. Eles não são admiráveis Macbeths ou Vautrins terríveis. São apenas o que seriam pessoas comuns e respeitáveis se não tivessem o suficiente para comer.”

No entanto, se a pobreza e propriedade privada são as pérfidas senhoras da desgraça humana. Cabe aos pobres se rebelarem contra os ricos. Pode-se ter compaixão de um pobre pacato e parcimonioso, mas nunca admiração, um homem que não se revolta contra a sua condição inferior, não se rebela contra as suas correntes que o fazem viver como um animal é decerto um estúpido. Os humildes pacatos “fizeram um acordo secreto com inimigo e venderam seus direitos inatos em troca de um péssimo prato de comida.” Mas a razão dessa total incapacidade deve-se ao fato de que a pobreza é algo tão degradante que paralisa a natureza humana.

A Alma do Homem sob Socialismo ainda pode responder a várias questões que assolam a sociedade. A sensibilidade aguçada de Wilde para os problemas sociais podem auxiliar a nova esquerda e aos movimentos contra hegemônicos neste século que inicia.

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