Os Novos Rumos da Literatura Amazonense

Karl Marx, no seu magistral A Ideologia Alemã, ao analisar como as estruturas econômicas exerciam uma influência avassaladora sobre a mentalidade dos indivíduos, produziu uma teoria de tamanho impacto sobre o século XX que boa parte dos sociólogos a partir dele se ocuparam em negar ou ratificar suas idéias.

De fato, as condições econômicas influenciam a vida espiritual de um povo, muito embora o fator econômico não seja determinante. Isso Marx já afirmara em O Capital. Infelizmente muitos daqueles que tanto criticarem-no tenham esquecido, ou mesmo desconheça por completo, que ele tenha, na sua obra mais importante, reformulado muitas das idéias do materialismo histórico.

Quando se fala em vida espiritual, não se engloba apenas a concepção de religião ou as crenças morais, se inclui também a produção intelectual, a arte e, portanto, a literatura. Então, tomando esse direcionamento, o escritor, como qualquer outro cidadão, é alguém que sente a angustia, as aspirações e idéias de seu tempo, ou seja, é influenciado por esta “produção material” que Marx descobrira; um dos fatores que impulsiona a evolução do fazer literário é a dialética da sociedade, tendo por conseqüência nestes homens, escritores e sujeitos da história, a ânsia por resolver e entender a dinâmica do meio onde vivem, e não simplesmente uma necessidade de superar seus mestres, como afirma o teórico literário Harold Bloom; que o diga então Emile Zola, que tentou criar uma escola literária capaz de equipara-se ás conquistas científicas de seu tempo, o resultado foi o Naturalismo.

Mas onde pretendo chegar com essa explanação é decifrar o novo rumo que a literatura amazônica está tomando; durante tanto tempo ocupada em retratar, principalmente, o universo do ribeirinho, do caboclo ou do indígena e suas angústias na luta de sobrevivência frente à floresta amazônica, como fez com tanta maestria pelo natural de manicoré Arhur Engracio, e alcançou o seu ápice em rigor estético com o português Ferreira de Castro, foi nada mais que uma arte fruto de uma estrutura social “ruralizada” e tradicional outrora predominante na Amazônia. Mas esse tema, que para muitos foi alvo de preconceito, tem perdido cada vez mais importância, ou pelos menos cada vez de dividir seu espaço com uma literatura mais urbana (como disse o escritor Max Carpentier), que só agora ganha mais espaço em nossa cena literária.

O progresso, esta força inexorável, que destrói as antigas relações de produção para criar uma outra, racional e competitiva, recomeçou no Amazonas, depois de décadas de torpor após a decadência da borracha, nos anos sessenta. As condições materiais de existência, em constante urbanização, “em suas disparidades e antagonismos” (para usar uns termos de Octavio Ianni), chama cada vez mais atenção desses escritores, principalmente os da nova geração. Os temas típicos de grandes metrópoles, crimes, narcotráfico, desemprego, a miséria das periferias — no nosso caso a problemática das invasões… O desespero do cidadão frente a um modelo social que tende a relegá-lo ao anonimato, estranho tanto para com os outros quanto para consigo mesmo, incapaz de gerir relações com base emocional, enfim, o homem que estes novos escritores, enfocam é um ser individualista que tem por base o cálculo em suas relações com o outro, enxergando os homens como meios que, se bem aproveitados, se pode chegar a um fim especifico…

Mas esse processo de urbanização não ocorre de maneira tão mecânica como se pode imaginar, com a simples substituição do tradicional pelo moderno. Como já foi constatado por estudiosos da urbanização na América Latina, como Rubem Oliven, Gilberto Velho e Florestan Fernandes, o desenvolvimento no nosso continente foi desigual, tardio, dependente e combinado, portanto, as estruturas modernas convivem de forma hora tensa, hora harmônica, com o tradicional.

A mesma tensão entre tradicional e moderno ocorre em nossa região, com a cultura cabocla dividindo espaço com formas culturais e econômicas racionalizadas. Estes novos escritores, entre os quais eu me incluo, mostram em seus textos esta referida ambigüidade do entrelaçamento entre a cultura tradicional amazonense e o impulso capitalista vindo dos grandes centros.

A nova literatura amazonense começou a mostrar sua face na década de 70, época em que o clube da madrugada dava sinais de esgotamento; entre um de seus primeiros registros é a obra “O Tocador de Charamela” do já falecido Erasmo Linhares, volume de contos que, embora com algum toque de prosa rural, já mostrava a tônica do que viria ser uma nova tendência dos artistas “barés”, o enfoque de um “mundo cruel, mesquinho e desumano,” como escrevera Tenório Teles no prefácio da obra.

Na ânsia de compreender a mutação social da sociedade amazonense, os novos escritores acabam, mesmo que inconscientemente, também por desenvolver uma nova forma de linguagem artística para interpretar o mundo amazônico.

Sentenças

Dos homens, em realidade, pode-se dizer genericamente que eles são ingratos, volúveis fementidos e dissimulados, fugidios quando há perigo, e cobiçosos.

Nicolau Maquivel (1469-1527)

 

 

Publicado em: às 15 de abril de 2009 em 14:54  Deixe um comentário  
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Hobbes e a Crise da Sociedade Brasileira

Por ter vivido durante um dos períodos mais conturbados da história da Inglaterra – a guerra civil – teve sua teoria demasiado influenciada pelas conjunturas da época. Mas apesar disso, Thomas Hobbes (1588-1679) foi capaz de fazer notáveis contribuições para o pensamento político; contribuições essas que, em outras palavras, ditas pessoais, se encaixam perfeitamente em nosso panorama atual de uma iminente guerra civil, de disfunção completa do Estado e de sua cada vez mais avariada soberania.

Suas idéias sobre a natureza humana lhe custaram a antipatia tanto dos conservadores, por sua negação do direito divino no absolutismo; quanto dos republicanos, por ser claramente a favor do Rei; e até da igreja católica, que o acusou de impiedade e ateísmo. Até hoje o filósofo é considerado como uma nota dissonante nas ciências políticas, ao lado de Karl Marx, Nicolau Maquiavel e Jean Jacques Rousseau.

Não obstante, Hobbes, assim como Maquiavel, foi um dos pioneiros a desmistificar a teoria aristotélica de cuja tese afirma que o homem era um Animal Político naturalmente sociável e, em ordinário, bom. Mediante o pensamento do filósofo inglês, teses absurdas como essas configuram-se numa máscara que impede os homens de perceberem a verdade: a de que a vida é uma corrida incessante e laboriosa, que só finda em morte: estar continuamente retrógrado é miséria, sobrepor-se aos outros conota a felicidade, quem abandona a competição da vida; compreenda-se morto.

Então, na ausência de um poder coercitivo o suficiente para impor o respeito entre os homens, colocando limites a esse impulso egoísta de competição e dominação, a sociedade estaria imersa numa condição de “guerra permanente”, onde todos os homens conflitariam contra todos os demais na tentativa de preservar sua vida, suas propriedades e na cruzada incessante de glória e poder, mas essa propensão dos sujeitos à guerra é, segundo Hobbes, uma tendência levada pelas paixões e pela razão, na tentativa dos indivíduos em escapar da morte violenta. Ou seja, no estado primitivo de guerra, “não há sociedade” (…) “e a vida (…) é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”. É a morte, a fome, a miséria, a única coisa certa que eles poderiam esperar…

Primeira edição de Leviatã, de 1651

Para impedir que um estado de tamanha barbaridade continue e evitar que os homens morram pela morte violenta, os mesmo entram em pacto, transferem a sua capacidade de se defenderem para um ser superior, com força e inteligência maior, e capaz de por fim à barbárie. Criam um ser superficial, o grande Leviatã. Criado pelo medo e com plenos poderes, a função do grande monstro é a garantir trabalho a todos, distribuir eqüitativamente as terras, garantir que as leis sejam aplicadas a todos com justiça e igualdade, e impedir que o ímpeto egoísta e destrutivo dos homens se manifeste. Acresce também que o pacto social perde a validade se o soberano, Estado, perder a capacidade de manter a paz. Deste modo, os súditos, ou cidadãos, tem a liberdade de procurar outro líder ou instituir um novo contrato.

Se Hobbes vivesse sob as pautas de nossos dias e resolvesse adentrar no Brasil, o que diria? O que afirmaria este filósofo político acerca das contradições existentes nesta sociedade? Certamente afirmaria que “o Estado perdeu sua capacidade como eufemizador da violência, portanto o pacto não possui mais validade.” Estamos rapidamente caminhando para uma terrível convulsão social, e aquele miserável estado de natureza, até agora relegado à esfera econômica sob o nome de capitalismo, se “transformará numa guerra de todos contra todos”.

A máquina estatal tornou-se hoje totalmente insuficiente para nos assegurar aquilo que lhe foi confiado: garantir-nos a paz e a vida. Nossas taxas de homicídios são similares à de um país em guerra, como o Iraque; os serviços públicos apresentam ineficiências e o congresso nacional está eivado por interesses de classes mesquinhas que há quinhentos anos lucram com uma estrutura retrógrada da sociedade.

É chegada a hora, portanto, da instauração de um novo pacto, mas desta vez instituído pelos verdadeiros cidadãos, aqueles que realmente produzem as riquezas mas não podem desfrutá-las, pois estão relegados há uma estrutura de exploração que os deixam à margem do seu produto. É mais que urgente a necessidade de instituir um novo Estado, cuja alma artificial esteja em consoante com as demandas daqueles que são realmente o povo brasileiro, distribuir as riquezas nas mãos dos produtores, fazer a reforma agrária, e reformar as estruturas públicas, para que realmente sejam públicas e não reféns de pressões particulares ou classistas.

É mais que urgente este novo pacto, pois como disseram Marx e Engels: “os produtores não tem nada a perder, a não ser suas cadeias.”

Publicado em: às 8 de abril de 2009 em 16:43  Comentários (1)  
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O Meu Cadáver

O meu cadáver apodrece na colina cinzenta….
Folhas marrons vêm cobri-lo com melancolia
Entre as árvores retorcidas que tremulam.
Abutres assomam lá no alto, em meio
A nuvens inquietas e sob o céu azul,
Voando em círculos dançando a coreografia
Do hediondo.

O vento sussurra na floresta
E logo surgem as sombras do crepúsculo.
Não há lagrimas para meu infortúnio,
Bem como não há melodias angelicais da tristeza.
Nem discursos acalorados lamentando meu voltar a terra…
Agora surgem vermes para sepultar-me…

Publicado em: às 2 de abril de 2009 em 0:06  Deixe um comentário  
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