Um Mero Caça Níquel

Lula: o filho do Brasil é uma das maiores barrigas da historia do cinema brasileiro e uma prova de que um orçamento gigantesco não é uma condição determinante para a qualidade das produções.

Luis Barreto perdeu uma boa oportunidade de fazer um estudo, tomando a trajetória da vida de Lula como tipo ideal, sobre o fenômeno da migração Nordeste-Sudeste e suas implicações para a vida social brasileira, como estes migrantes, que em sua terra natal eram pequenos agricultores, expulsos de suas propriedades em virtude da falência do modo de produção tradicional, atraídos para as grandes capitais, fruto de um modelo de desenvolvimento autoritário modernizante adotado a partir de 1964 e caracterizado por uma industrialização concentradora de renda e dependente; Barreto também perdeu a chance de mostrar como estes mesmos migrantes, no processo de expropriação/proletarização, se organizam contra a tirania do capital e pautam seu método de resistência a partir da práxis cotidiana — trocando em miúdos, o diretor roteirista poderia ter feito um verdadeiro épico brasileiro, a partir da marcha de milhares de homens e mulheres que singraram para todas as regiões brasileiras e deram esta conformação atual para o Brasil.

Infelizmente foi uma chance perdida. Barreto reduziu a espetacular historia do presidente operário a um capitulo estendido de novela das oito, com todos os chavões e clichês que o gênero precisa ter para agradar as mentalidades mais rasas que fazem parte de sua audiência. Além disso, o endeusamento do futuro presidente é tal, que chega mesmo a dar a impressão de tentar-se compará-lo ao messias, tirando qualquer possibilidade de representar Luis Inácio da forma com realmente é: um líder repleto de contradições.

As deficiências do roteiro são dezenas. Num certo momento, quando Lula pede em casamento sua primeira mulher, esta lhe responde: “Se tu morrer eu te mato” (!). Também há outras perolas que se eu decidisse transcrevê-las aqui encheriam a página. O filme possui várias cenas descoladas, sem qualquer ligação que permita perceber sua contribuição para o andamento da narrativa, como aquela em que Lula, já um jovem operário, chega bêbado em sua casa e sua mãe, interpretada de maneira convincente por Gloria Pires, lhe diz: “Primeiro a obrigação, depois a distração.” Outra cena mal feita foi a do momento em que Luis Inácio perde o dedo, parecia mesmo que o diretor a colocou de qualquer maneira no decorrer do filme, como se durante a edição final, esquecendo de contar este fato, fizesse um recorte preguiçoso para sanar a carência.

Parece constrangedor um filme que teve 16 milhões em seu orçamento contar com tanta pobreza de meios para sua realização. Um dos momentos em que isso fica latente é a cena da greve do ABC, que contava com 180 mil grevistas (embora ele acerte em parte mostrando o momento em que os ; com uma verba deste tamanho bem que o diretor deveria ter representado aquele momento histórico de proporções homéricas dando-lhe a devida magnitude, mas ao invés disso ele apela para imagens da época, como se tentasse economizar dinheiro, frustrando a expectativa de quem esperava uma representação grandiosa do fato — se a intenção era proporcionar mais realismo, o máximo que conseguiu foi colocar o espectador para fora do filme.

Entretanto, Lula: o filho do Brasil não se resume apenas a erros. A primeira parte da narrativa, retratando a vinda do futuro presidente para a capital é bem convincente, assim como a representação de sua sofrida infância, em que já mostrava carisma no trato com as pessoas: quando ele e seu irmão estão vendendo laranja, e não conseguem nenhum freguês, Luis Inácio pega uma fruta e aborda uma senhora, dizendo-lhe:

“Olha senhora, esta é a laranja mais gostosa de São Paulo, eu separei uma especialmente pra senhora.”

“Mas que menino bonitinho! Vou comprar a laranja…”

O ator que interpretou Lula na fase adulta, Rui Ricardo Dias, também dá conta do recado, reproduzindo de maneira convincente, apesar da direção ingrata, a entonação de voz e os trejeitos de seu personagem — note a forma quase idêntica como ele gesticula nas cenas de comício.

Uma das criticas mais infelizes contra a produção, feita por órgãos da imprensa a direita do espectro político, é a de que esta funcionaria como um veículo eleitoreiro. Pura estupidez. Se estes panfletos neofacistas tivessem o mínimo de honestidade intelectual, perceberiam que o filme não faz nenhuma menção direta ao PT ou a pré-candidata á presidência Dilma Roussef; a película termina exatamente quando Lula é preso no final da década de 1970, vitimado pela ação energética do presidente João Batista Figueiredo, que tentava sufocar a greve dos operários do ABC.

Rui Ricardo Dias e Glória Pires

Como a necessidade de ganhar dinheiro imediato foi grande demais, Barreto adaptou o filme as mentes mais estreitas, acostumadas aos dramas pastelões que se reproduzem desgraçadamente em nossas televisões. Se não tivesse feito qualquer concessão a mediocridade e realizado uma produção cult, teria auferido para a projeto alguns prêmios, tanto nacionais quando internacionais e, por conseqüência, levado bem mais que os poucos milhões arrecadados com o rendimento mediano de seu filme nas bilheterias nacionais.

O diretor Luis Barreto transformou Lula: o filho do Brasil num mero caça níquel — e como tal será completamente esquecido daqui há alguns anos.

Publicado em: às 27 de janeiro de 2010 em 22:27  Comentários (2)  
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Avatar e a Antropologia

Muito mais que um filme de ação repleto de incríveis efeitos especiais, Avatar trás uma bela reflexão sobre o choque de culturas decorrente da expansão da ordem social moderna e suas terríveis conseqüências para as sociedades tradicionais.

Passando-se no ano de 2156, o filme tem como pano de fundo a exploração de um planeta chamado Pandora, com incríveis belezas naturais e habitado por um povo chamado de Na’vi — humanóides azuis de membros longos que vivem em harmonia com o seu habitat. Uma poderosa empresa privada tem a primazia da exploração do território conquistado, que contém um valioso minério. Contudo, a maior reserva já encontrada deste inestimável mineral está localizada exatamente sob o território da comunidade nativa. Assim, é enviado um grupo de cientistas conectados a avatares idênticos aos nativos, artificialmente criados, para interagir com os alienígenas e fazê-los sair pacificamente de suas terras. O problema está no fato de que para os nativos, o local onde vivem possui um valor religioso, pois ali é supostamente a morada da sua deusa, Eywa.

O soldado Jake Sully, designado para acompanhar a equipe de cientistas, perde-se de seu crew durante uma expedição e acaba entrando em contato com os Na’vi. A partir daí ele vai conhecendo o seu modo de vida, o que precisa aprender para viver em comunidade e os rituais de iniciação para tornar-se um guerreiro. Sully se encanta com os nativos e percebe o niilismo da sua própria vida, como um paraplégico sem qualquer perspectiva no mundo civilizado — ao começa a se questionar se antes sua vida era apenas uma mentira e, agora, diante da simplicidade e beleza da comunidade Na’vi, acredita ter finalmente encontrado a verdade.

Com o roteiro muito similar aos filmes como Dança com Lobos e O Ultimo Samurai, em alguns momentos chega a lembrar Matrix, o longa mostra de maneira extremamente realista o modo de vida do povo de Pandora. Claramente inspirado nos povos tradicionais, mas precisamente nos indígenas americanos, com sua cosmogonia totalmente subordinada as leis da natureza, produzem sem a intenção de gerar excedente; possuem ainda uma organização política dividida entre os guerreiros, o chefe e o líder espiritual (não haveria entre eles a dominação carismática e tradicional, detectada por Florestan Fernandes ao estudar os Tupi?); a diferenciação dos indivíduos ainda é muito tênue, o nível de divisão social do trabalho quase não se faz notar, deixando entrever que entre eles é predominante relações de solidariedade mecânica; entendemos a solidariedade, conceito criado por Emile Durkheim, como o substrato que matem a coesão dos homens na vida social — a solidariedade mecânica ocorreria quando os indivíduos, pouco se diferenciando entre si, com um sistema de crenças e sentimentos comuns são, portanto, ligados diretamente a sociedade, sem qualquer instituição que os intermediasse; neste tipo de solidariedade os indivíduos não se pertencem, eles pertencem a sociedade…

Avatar mostra diversos personagens e seus respectivos olhares para o processo de contato entre humanos os habitantes de Pandora. Como da pesquisadora Grace, um misto de antropóloga e bióloga, que possui um interesse quase que totalmente cientifico pelos nativos. Ao usar avatares para deles se aproximarem, está na verdade usando o clássico método da Observação Participante criado pelo celebre antropólogo Bronisław Kasper Malinowski (1884-1942), que consiste basicamente em ser, sentir e participar das atividades da comunidade como faz o nativo, pois só assim o estudioso poderia chegar o mais perto possível da cultura em questão. Grace possui uma imagem muito próxima dos primeiros antropólogos do começo do século XX, cientistas que, indo estudar os povos das terras conquistadas do Império, teriam seus trabalhos usados para amansar povos rebelados ou propiciar instrumentos para impedir que novas rebeliões ocorressem. Um dos exemplos mais clássicos de etnografias usadas como instrumentos de políticas imperialistas é Evans Pritchard, que estudou o povo Nuer, do Sudão — atualmente o governo americano tem lançado mão de antropólogos para mediar a relação entre militares e iraquianos. O sociólogo Guerreiro Ramos (1925-1982) explicita bem este caráter escuso da antropologia:

De modo geral, a antropologia européia e norte americana tem sido, em larga margem, uma racionalização ou despimento da espoliação colonial. Este fato marca nitidamente o seu inicio, pois ela começou fazendo dos povos primitivos o seu material de estudo.

Os personagens do Coronel Quaritch e do executivo da empresa, encarnam o arquétipo do militarismo imperialista e da faceta perversa do capitalista que procura a todo custo expandir seus negócios e seus lucros. Preconceituosos e intolerantes para com um povo de uma matriz cultural diferente, apenas enxergam os nativos como um obstáculo aos seus empreendimentos. A cena mais representativa disso é quando a cientista Grace, argumentando para evitar o desmatamento de uma grande área de mata, diz ao executivo que as mesmas tinham criado uma espécie de conexão neurológica entre elas, como se fossem um grande cérebro, e acaba recebendo como resposta: “O que vocês fumaram para inventar isso? São apenas árvores!”

Quando um ataque de hordas de Na’vi contra as instalações dos humanos torna-se iminente, o Coronel Quaritch, discursando para seus soldados sobre o perigo, usa termos muito semelhantes ao da exrema direita americana na época da invasão do Iraque: “Vamos combater terror contra terror” e no fim de sua fala debocha das crenças nativas.

São seres desnecessários para a historia e para o progresso da humanidade — muito lembrando a célebre obra Fausto, de Goethe. O seu personagem principal, que dá nome ao livro, está pondo em marcha um dos seus maiores empreendimentos e de repente se depara com um empecilho: uma pequena e velha casa está justamente no meio do terreno onde será o erguido o projeto. Fausto, então, visita seus moradores, um casal de velhos chamado Filemo e Báucia, e lhes oferece uma polpuda quantia para comprar a habitação. Os dois anciões, que tinham naquela velha residência um forte laço afetivo, recusam a oferta. Fausto, sentindo-se ultrajado, chama Mefistófeles e seus homens e ordena que os velhos sejam removidos o mais rápido possível. Não se importa em saber como será feito, apenas deseja que o “problema” seja resolvido da maneira mais ligeira. No outro dia Mefistófeles retorna, dizendo que a casa foi incendiada e os velhos mortos. Marshall Berman exemplifica muito bem esse tipo de atitude: “Isso é um estilo de maldade caracteristicamente moderno: indireto, impessoal, mediado por complexas organizações e funções institucionais.” Qualquer semelhança entre a as aspas de Berman e as arbitrariedades que a empresa Log-in lançou mão para aprovar o Porto das Lajes não é coincidência…

Ainda segundo o autor de Aventuras no Marxismo, os nativos de Pandora são uma ótima representação daquele grupo de pessoas que terão vasta repercussão na ordem social moderna: aquelas que estão no caminho da historia e do progresso. São pessoas completamente obsoletas para este Carro de Jangrená chamado modernidade — estes indivíduos, comunidades, culturas ou sociedades, por sua incapacidade de adequarem-se ao novo sistema, são irremediavelmente descartados.

O antropólogo Bronisław Kasper Malinowski: criador da Observação Participante

O sofrimento que os Na’vi experimentam ao verem suas florestas queimadas, seus lares destruídos, sua cultura e tudo naquilo que mais acreditam sendo desmanchado lembra o flagelo que as populações indígenas sofreram, e ainda sofrem, com o processo de contato com os ditos civilizados — resultando num verdadeiro genocídio para os povos tradicionais. Entretanto, como mostra o filme, mesmo de forma estilizada, o processo de contato não ocorre com a total passividade do lado mais fraco. Muitas vezes a etnia ou a sociedade reagem a tal processo, seja aprendendo os mecanismos da cultura do branco e usando-a como meio de reivindicação por melhores condições ou como protesto por abusos sofridos, como tem ocorrido na atualidade, Marshall Sahlins chama isso de autoconsciência cultural; seja com o embate direto, como em coligações militares como a do Rio Negro liderada pelo grande Ajuricaba nos anos de colonização de Amazônia. Infelizmente, no filme este processo é enfocado de maneira completamente preconceituosa, colocando um “branco” para organizar o exercito nativo — o diretor roteirista James Cameron deixa escapar a visão que eles são incapazes de se auto-organizarem e lutar pela sua pátria.

Não se sabe se Cameron leu Durkhiem, Malinowski ou Sahlins, mas por detrás das deficiências do roteiro e dos impressionantes efeitos especiais, o filme pode ser uma boa fonte de debates, se assistido com um olhar correto, a respeito do lugar das sociedades tradicionais no mundo moderno, das nefastas conseqüências da situação de contato ou do nosso modelo de civilização — insustentável do ponto de vista ambiental e implacável para com os mais fracos.

Publicado em: às 5 de janeiro de 2010 em 20:08  Comentários (7)  
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