Sentenças

Quem combate monstruosidades deve tomar cuidado para não se tornar um monstro. E quando você olha para dentro de um abismo, o abismo também olha para dentro de você.

Friedrich Nietzsche (1844-1900)

Publicado em: às 25 de abril de 2010 em 19:10  Deixe um comentário  
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Blaze em Manaus: Uma Aula de Heavy Metal

Depois de Paul Dianno em 1997 e do próprio Iron Maiden em 2009 (leia aqui a resenha do show), o competente Blaze Bayley também fez uma bem sucedida apresentação em Manaus, no dia nove de Abril, na cervejaria Fellice, na turnê de divulgação do seu ultimo disco Promise and Terror, lançado no inicio de 2010.

A banda encarregada do pré-show, Veludo Branco, de Roraima, fez o seu papel apresentando um Hard Rock seguro e bem tocado, executando músicas próprias e pequenos trechos do Led Zepellin e Black Sabbath — pena que o público não deu o merecido valor para o power trio.

Quando o relógio da maioria das pessoas já passava da meia noite, Bayley iniciou sua apresentação. Exatamente neste momento, todo o público veio para junto do palco e assistimos uma verdadeira aula de heavy metal, começando com a destruidora Madness and Sorow, segunda faixa do poderoso Promise and Terror. A banda apresentava uma coesão impressionante, as guitarras da dupla Jay Walsh e Nicolas Bermudes estavam muito bem entrosadas, detonando com riff´s avassaladores e solos muito bem construídos; o baixista David Bermudez não deixava a desejar com uma boa presença de palco e uma técnica apurada; o baterista Larry Peterson parecia uma máquina, não parava nenhum momento para respirar e descia o braço na caixa e nos pratos da cozinha; quanto ao chefe, o tenor Blaze Bayley, percebia-se a grande evolução em sua técnica vocal, assim como em sua presença de palco; com um carisma contagiante, o britânico não parava para agitar: levantava os braços, mandava quem estava parado bater cabeça (“bang your head, mother fuckers!”), apertava a mão dos fãs e agradecia toda hora pelo apoio recebido.

Durante os raros intervalos em que o vocalista fez para dar uma palavra ao publico, falou sobre a mudança de sua antiga gravadora para o seu recém montado selo, Blaze Bayley Recodings, e que agora, como artista independente, ele consegue fazer algo que não fazia antes — tocar em varias cidades do mundo. Também disse com grande razão: “vocês tem poder, os fãs do Brasil tem o poder, o poder de fazer uma banda grande, de fazer heróis, cada um de vocês aqui tem o poder, vocês tem a coragem de pensar por vocês mesmos, vocês tem a coragem de acreditar em seu próprio coração, e todos aqui sabem que vocês escutam a musica que escolheram, não o que a MTV manda ouvir, mas o estilo musical que vocês escolheram.”

Entre as musicas tocadas podemos destacar The Brave, City of Bones, Faceless e Leap Of Faith; embora estas canções tiveram uma grande resposta dos fãs, não há duvida de que as faixas dos tempos da Donzela e Ferro empolgaram mais: Man on the Edge, Lord Of The Flies, Futureal e The Classman. Entretanto, falando como admirador de Blaze desde os tempos de Iron, senti falta de clássicos como Sign Of the Cross, 2 A.M, e When Two Worlds Collide, que com certeza se sairiam muito bem ao vivo. Também considero que Blaze poderia ter explorado mais o interessante disco Tenth Dimension, do qual só foram executadas apenas duas músicas, a porrada Kill and Destroy e a medíocre Speed Of Light. Músicas marcantes do Tenth como End Dream, Nothing Will Stop me, Meant To be ou a sombria Strange to the light mereciam estar no set list.

O show fechou com a pesadíssima Robot, com todos os músicos e público exaustos de tanto bater cabeça e agitar. Com a grande receptividade que os fãs brindaram Blaze Bayley, não há duvida de que poderemos vê-lo outras vezes aqui na Paris dos Tristes Trópicos — da próxima vez os promotores do futuro show resolvam realizá-lo num lugar maior e assim baratear o ingresso, pois o preço salgado deixou muita gente de fora: 60 reais a pista e 80 o VIP.

A casa não teve lotação máxima. Mas o show foi excelente e a organização merece seu mérito pelo evento. Entretanto, houve problemas graves, como a questão da divulgação do horário do show: no ingresso estava ás dez horas, enquanto que nos cartazes pendurados no estabelecimento estava: “show a meia noite”; outro erro foi a confusão sobre quem seria a banda pré-show, a gerente do Fellice disse que seria uma banda de Santa Catarina, indicada pessoalmente por Bayley, enquanto que a organizadora do evento afirmou se tratar de um grupo de Roraima; também foi avisado que as pessoas que comprassem o ingresso VIP teriam direito a uma camisa e a uma sessão de autógrafos com o cantor, mas qual foi a nossa decepção quando vimos que a camisa não era boa, parecia as camisas dos funcionários do Fellice; quanto a sessão de autógrafos, uma desorganização total, muitas pessoas que tinham comprado o ingresso VIP justamente para ter o CD autografado e tirar uma foto com o vocalista, como foi o meu caso, ficaram de fora — puxaram Blaze sem mais nem menos para conceder entrevista para a TV Cultura. No final da execução de Kill and Destroy o microfone do cantor teve alguns problemas técnicos, que felizmente foram logo resolvidos, e uma das guitarras estava baixa demais — quase não dava para ouvir seus solos.

Ao contrário do ressentido Paul Dianno, que critica seu antigo grupo em todas as entrevistas que concede e chama Steve Harris de Hitler, mas ironicamente ganha a vida tocando as músicas de sua época no Maiden, Blaze Bayley segue em uma carreira solo cada vez mais bem sucedida tanto de critica quanto de público — firmando aos poucos seu trabalho na cena metálica mundial através de bons shows como o que ocorreu em aqui em Manaus.

Publicado em: às 16 de abril de 2010 em 22:56  Deixe um comentário  
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Arte, Ciência e Sociologia

O interesse do artista na forma é o interesse do cientista na estrutura. Em cada um, o desejo de visão e entendimento é dominante. Cada um trabalha empiricamente; luta para comunicar sua descoberta através de um padrão ou uma estrutura formal que requer técnica para ser dominado. R. Nisbet

O desenvolvimento do pensamento moderno durante os dois últimos séculos acabou por criar e propagar uma imagem de que a ciência e a arte são coisas completamente diferentes. Ou seja, tornou-se senso comum a tese de que a mente cientifica é impulsionada pelo estudo sério, pelo apego rígido a métodos previamente aprovados e pelas observações empíricas mais elementares; enquanto que o artista seria movido pela beleza, pelo dom da inspiração e pela ojeriza a sociedade.

Mas para o sociólogo Robert Nisbet em seu ensaio A Sociologia como uma forma de Arte, essa forma de imaginar estas duas esferas do pensamento humano não poderiam estar mais equivocadas, pois tanto ciência quanto arte são, na verdade, duas representações diferentes de uma característica humana — a busca pela verdade. Tanto o artista quanto o cientista estão preocupados em compreender o universo e se comunicar, por meio de sua subjetividade, com o mundo a sua volta.

Se recuarmos até o Renascimento, veremos que o artístico e o cientifico eram manifestações diferentes de uma mesma mente criativa.

“O homem da Renascença viu o mundo a sua volta a partir do vantajoso ponto de vista do artista cientista; não algo para ser reverenciado ou para manipular, mas para entender e dominar (…)” (pg. 119-120)

Esta separação radical entre arte e ciência começou a ganhar espaço a partir da revolução industrial e da revolução francesa, quando, com os processos levantados pelos movimentos sociais e pela divisão do trabalho criaram a concepção de que artistas e cientistas trabalhavam de maneiras extremamente antagônicas. No século XIX essa aparente separação radicalizou-se com o romantismo. Imaginava-se que o artista era movido pelo gênio e pela inspiração, nunca através de estudos constantes e da experimentação — preocupado com a arte e com a beleza, isolava-se do mundo como um antídoto contra a civilização industrial. Do outro lado estava a ciência, recrutada para as fileiras da sociedade capitalista e totalmente englobada pela tecnologia utilitarista “fazendo dela não mais o que havia sido por séculos, fundamentalmente a atividade da mente reflexiva, mas uma profissão governada pelos códigos e critérios do serviço, tal como o direito, a engenharia e a medicina.”

Assim, a ciência do tipo aplicado foi ganhando espaço entre as universidades americanas e européias. Acreditou-se que a ciência estaria preocupada apenas com a realidade, enquanto a arte serviria apenas para aguçar e agradar aos sentidos.

Espalhou-se e idéia de que a ciência, diferentemente da arte, flui através dos mesmos canais metódicos e sistemáticos que os negócios ou o direito ou a medicina. Sentia-se que o crucial não era a reflexão livre, a intuição e a imaginação. Mas a rigorosa aderência aos procedimentos. A maquina na fábrica havia provado que a habilidade poderia ser transferida do homem para a tecnologia, fazendo da engenhosidade humana um item dispensável. Não poderia o método ser análogo da maquina? Muitas gerações de americanos pensavam que sim, escolas e colégios ficaram cheios de estudantes aprendendo fielmente o que se pensava ser método cientifico — não, infelizmente, como uma ajuda ao raciocínio, mas como um substituto dele. (Pg.115-116)

Mas o artista também procura, tanto quanto o cientista, interpretar a realidade. Ele procura apreender o mundo a sua volta através de sua subjetividade e comunica sua visão da Verdade Universal para a sociedade.

A sensibilidade do artista o faz captar as novas relações geradas no interior do tecido social; o faz sentir, primeiro que o cientista, pequenas mudanças que anunciam eventos que ainda estão por surgir — a intuição da mente cientifica para a sociedade é muito mais clarividente que a da mente cientifica, cuja percepção para os novos eventos se processa de maneira mais lenta.

Os problemas e as respostas que formam o núcleo da cultura moderna são o trabalho, não dos Úteis da sociedade, mas dos Visionários, daqueles que se perdem em conjecturas e que, sem saber para onde estão indo, vão por isso mais longe. (pg.120)

Reduzir as ciências humanas em simples manuais metodológicos, questionários e técnicas de tabulação, apenas tolda a capacidade dos alunos em desenvolver sua própria imaginação icônica e avançar mais longe em suas pesquisas — limitar a realidade em simples tabelas estatísticas restringe a capacidade critica do pesquisador e o que resta é somente as “generalizações superficiais da pratica do senso comum”.

O sociólogo americano Robert Nisbet (1913-1996): arte e ciência caminham juntas.

Se observarmos os grandes nomes da sociologia, Giddens com a sua teoria dos sistemas peritos e da modernização reflexiva; Beck com seus estudos sobre a sub-política; Bauman com sua tese da modernidade liquida; Weber a dominação racional; Simmel e suas reflexões sobre o dinheiro e sobre a vida nas grandes cidades; Durkheim e o fato social; Faoro e o patronato político; Holanda e seu homem cordial; perceberemos que suas inovações e reflexões perspicazes não vieram através de um apego rígido aos velhos e antiquados manuais de pesquisa técnica, foram sobretudo fruto de um cultivo intenso da atividade intelectual, com a leitura de um imenso arco teórico, que abarca filosofia, sociologia, historia, literatura, psicologia, psicanálise e tantas outras áreas que lhe permitiram reagir ao mundo que os cercava, desenvolver a perspicácia, inteligência imaginativa e a intuição para inovar, ir adiante e tornarem-se hoje dignos dos louvores que hoje recebem.

Somos dependentes, segundo Nisbet, destes conceitos da mesma forma que os artistas são dependentes de seus mestres. Assim como o escritor ainda aprende algo ao reler Balzac; o pintor ao estudar os traços de Van Gogh; o músico apreende algo ao escutar Antonius Rex ou Bach; nós ainda aprendemos muito ao reler As conseqüências da Modernidade, O suicídio ou O capital.

A arte abomina sistemas, e assim procede tudo o que é criativo. A historia é o cemitério dos sistemas e é precisamente por isso que Simmel e Cooley e Summer mantêm-se atuais e valiosos para nós hoje e porque poucos lêem Spencer ou Ward. Com qual freqüência os construtores de sistemas produzem estudantes que são criativos e viáveis? O sistema mata, o insight dá vida. O que resta hoje do nominalismo, do realismo, do sensacionalismo, do pragmatismo e de todos os outros sistemas que uma vez desfilaram nas terras da Europa? Mortos, todos mortos. (Pg. 129)

Não se forma um estudante nas ciências humanas ou sociais fazendo-o analisar os velhos e antiquados sistemas e métodos de pesquisa, mas sim apresentado-o toda a riqueza da cultura e do pensamento humano, pois como afirma Nisbet: “Sistemas tornam-se facilmente burocracias do espírito, sujeitos as mesmas normas e regulamentações insignificantes.”

Publicado em: às 3 de abril de 2010 em 21:06  Deixe um comentário  
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