Amaldiçoado: A Vida e a Obra de Edgar Allan Poe (Parte I)

Dir-se-ia que a Natureza, e creio que isso já foi muitas vezes observado, torna a vida bastante dura àqueles de quem deseja extrair grandes coisas.

Charles Baudelaire

Tal assertiva do autor de Flores do Mal se encaixa perfeitamente na vida deste ilustre maldito da literatura mundial, o norte americano Edgar Allan Poe, autor do clássico poema O Corvo.

Na primeira metade do século XIX, época em que viveu Edgar Allan Poe, nos Estados Unidos, mesmo depois de décadas de sua independência, ainda estava lutando para se firmar como nação. O país recebia uma quantidade enorme de imigrantes europeus e asiáticos gerando uma grande variedade social e cultural. A conquista do oeste estava a todo vapor, efetuada pelos imigrantes que, sem oportunidades no leste, punham-se na conquista de novos territórios em carroças cavalos ou por via fluvial, expulsavam ou dizimavam as populações indígenas. As novas terras eram usadas para agricultura, pastagens e na procura de metais preciosos. As contradições sociais geradas pelo desenvolvimento do norte e do leste frente ao sul escravocrata fariam em breve o país entrar em guerra civil (1861-1865).

No plano literário, os Estados Unidos ainda não tinham se solidificado. Muito da produção cultural norte americana ainda seguia os modelos europeus, em especial o inglês. O que levaria ao escritor britânico Sydney Smith a dizer, em 1820, que a América, quarenta anos depois da independência, ainda não tinham dado nenhuma contribuição relevante para a arte ou para a ciência.

É neste contexto conturbado e de luta pela solidificação cultural e social que Edgar Allan Poe está inserido. Um dos principais fundadores da literatura americana e renovador das letras mundiais, sua obra pode também ser lida, tanto como a expressão de suas fobias e sofrimentos que teve em vida, como uma metáfora da conturbada sociedade em que viveu.     

Sua vida foi amarga, repleta de decepções e perdas. Nasceu em Boston em 1809 e faleceu em 1849, quando já tinha atingido plena maturidade literária. Perdera os pais ainda na infância, dois atores fracassados, vitimados pela tuberculose — o irmão também era tuberculoso, e a irmã, epilética.

Depois da morte dos pais foi adotado por um casal aristocrata de Richmond, chamados David e Elizabeth Allan. Entre os anos de 1815 e 1820, a família mudo-se para Inglaterra onde o pequeno Edgar estudou em instituições particulares de renome como Stoke Newington, em Londres, recebendo uma esmerada educação. Quando retornou a América, entrou na Universidade de Virginia, a mais aristocrática universidade do sul dos Estados Unidos, fundada por Thomas Jefferson.

Contudo, o clima burguês da instituição em muito desgostava o jovem Edgar. Os alunos seguiam hábitos extremamente austeros e puritanos. Exatamente o contrario da personalidade inquietante do poeta. Avesso a rotinas, detestando todo e qualquer convencionalismo da vida cotidiana, Poe entregava-se aos excessos de uma vida boêmia; bebia, blasfemava contra a religião e contra os valores morais mais caros aos burgueses da Universidade. A fama de devasso logo espalhou-se, chegando aos ouvidos das famílias dos alunos, o que acarretou inevitavelmente na sua expulsão. A noticia caiu como uma bomba na mansão dos Allan, deteriorando ainda mais a relação entre David e Edgar, que já vinham se desentendendo em virtude do vicio de jogo do futuro escritor.

Depois de passar um tempo servindo ao exercito, sob o nome de Edgar Allan Perry, ingressou na academia militar por influência de seu pai, mas acabou expulso por insubordinação.

Com este acontecimento Edgar e David nunca mais se falaram.

Sem qualquer perspectiva em Richmond, Poe vai para a sua cidade natal, Boston, na Nova Inglaterra. Onde passou a morar com sua Tia, a Senhorita Clemm e sua filha, Virginia Clemm, que em pouco tempo seria a esposa de Poe e grande amor de sua vida.

Para sobreviver colaborava em inúmeras revistas, onde publicou seus mais famosos contos, dava palestras e chegou a ser editor da Burton´s Gentleman Magazine e, mais tarde tornou-se sub-editor da Evening Mirror — mesmo assim a vida não era fácil para os escritores da época, e passou toda a sua vida adulta amargando uma vida miserável.

Com Virginia, foi morar numa pequena e destruída casa, onde o casal passava dias inteiros sem comer. Foi ali que sua amada esposa morreu tuberculosa, numa cama fétida sendo coberta apenas por um velho capote militar de West Point.

A morte da mulher em muito o afetou, e Poe, que já tinha problemas com álcool, começou a beber ainda mais. Alguns amigos, como Jonh Sartain, notou no escritor já alguns sintomas de desequilíbrio mental.

Túmulo de Edgar Allan Poe

Em setembro de 1849, encontraram-no desfalecido numa sarjeta de Baltimore, levado para o hospital, faleceu alguns dias depois balbuciando frases desconexas, entre as quais: “It´s All Over now, write Eddy is no more…”         

Publicado em: às 17 de novembro de 2009 em 19:05  Deixe um comentário  
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A Escravidão nos Seringais

Servidao Humana na SelvaVim pro Amazonas ganhar dinheiro, e não ganhei foi nada… O negócio da seringa só dava pra gente se aviar… Vivia naquela ilusão… Se eu tivesse no Ceará não queria saber mais do Amazonas.

Relato de um Seringueiro do Rio Madeira

Michel Foucault, influenciado por Friedrich Nietzsche, afirmara que por detrás da pompa dos hinos nacionais cantando a glória do nascimento da pátria, se esconde milhares de vidas sacrificadas nas guerras de unificação; e por detrás do mito da criação do mundo, encenando a beleza do jardim do Éden e a ingênua harmonia entre Adão e Eva, se esconde, na verdade, o parentesco com o macaco e, por sua vez, o cinzento laço com o verme…

A história, segundo o pensador francês, está repleta destas lendas que escondem um lado obscuro no fundo dos seus épicos versos, criados em favor de uma determinada gama de interesses. Cabe ao sociólogo e ao historiador desvendá-los — efetuando a arqueologia dos períodos históricos e das relações sociais.

Um dos exemplos mais típicos no Amazonas de fatos históricos mascarados por interesses escusos são as propagandas e historiografias oficiais com relação ao período áureo da borracha, mostrando-o como um tempo de grandes realizações, tanto no terreno das obras públicas quanto no âmbito social, ressaltando a riqueza produzida neste período e o aperfeiçoamento cultural pelo qual Manaus passara (a belle epóque, que nosso governo teima em reproduzir, de forma caricatural, em festivais de opera) nos quase trinta anos de pulsação da economia gomífera, como um dos períodos dos mais interessantes que a Paris dos Tristes Trópicos já teve.

Tal forma de ver a historia e as sociedades, tão comum em historiadores a direita do espectro político e na propaganda de governos populistas, interessados em criar uma bandeira pela qual possam arrancar certos dividendos políticos, nada mais é do que uma forma de mascarar a verdadeira e perversa dinâmica da qual é regida os períodos históricos e, em questão, a economia extrativa. Longe de ser um período de requinte social e cultural, o fausto da economia gomífera foi caracterizada pela exploração compulsória de homens e mulheres sob o regime hediondo do aviamento, e pelo fato absurdo de que, como dissera Euclides da Cunha, o homem trabalhava para escravizar-se.

Muitos já foram os estudos efetuados sobre o período áureo da economia gomífera, principalmente do ponto de vista histórico — a Ilusão do Fausto de Edinea Mascarenhas Dias é um dos exemplos mais famosos. Faltava, entretanto, um estudo de precisões mais sociológicas que enfocasse o modo de produção extrativista a partir não de acontecimentos ou datas, mas a partir das suas relações sociais e de como estes homens se comportavam frente à dicotomia de uma floresta cheia de perigos e de um sistema de compra e troca tão impiedoso.

Servidão Humana na Selva: O Aviamento e o Barracão nos seringais na Amazônia, de Carlos Correia Teixeira, vem tapar este buraco na sociologia sobre o modo de produção extrativista e se juntar ao seleto hall de obras que pensam a Amazônia criticamente, em contraposição a forma linear e conservadora de pensadores convencionais como André Vidal de Araújo, Álvaro Maia ou Samuel Bechimol. Apesar de ser um estudo efetuado na década de setenta, foi tese de mestrado do escritor, Servidão Humana está longe de ser um estudo defasado, longe disso, é um ensaio que vai até o cerne do acontecimento histórico, achando as descontinuidades das relações do seringal, destrinchando seu lado cinzento, recompondo arqueologicamente suas contradições, os dramas do trabalhador da seringa, seus sofrimentos e mesmo seus raros momentos de felicidade, sentindo-se um verdadeiro artista ao defumar a borracha: “é o maior prazer do mundo!” era a frase de um trabalhador contida do livro.

Dialogando com varias vertentes da sociologia, como por exemplo com o esquema de dominação patrimonial de Max Weber, o autor, contudo, centra-se no legado teórico de Karl Marx para a sua análise de cada um dos aspectos das relações tecidas no seringal.

Muito interessante é a afirmação de que o barracão é a nossa versão dos engenhos, criando uma complexa rede de relações sociais que ainda não foram devidamente estudadas — pelo menos no que tange a sociologia.

O seringal, segundo Carlos Teixeira, mesmo depois de quase um século passado desde o fim da preponderância extrativista, sua organização persistiu e ultrapassou mais de um século.

Mais de trezentos mil nordestinos vieram para a região Amazônica a partir da década de setenta do século XIX. Boa parte destes pobres diabos provenientes do Ceará — iludidos com a promessa de enriquecimento fácil. Contudo, quando aqui chegavam, o véu de suas ilusões era brutalmente estraçalhado pela cruel realidade de ter estarem sujeitos a um regime que, já os fazendo endividados desde o momento em que ali chegavam, os fazia trabalhar mais de dezoito horas por dia.

Sozinhos nos seringais, sem uma legislação trabalhista ou qualquer autoridade que pudesse inferir por eles, os seringueiros eram largados aos próprios caprichos do seringalista, que os explorava desde a adulteração dos preços das mercadorias vendidas no barracão, até nos pesos da borracha quando de sua venda ao senhoril. Muitas eram os historias de abusos e crueldades contra o seringueiro que tentasse fugir ou cogitasse vender a borracha ao regatão — vale dizer que este era um fator de instabilidade ao poder tirânico do seringalista, travar negócios clandestinamente com o seringueiro. Teixeira menciona uma história, contada pelos seringueiros mais antigos, de um grande buraco cheio de cobras onde o patrão costumava jogar aqueles que fizessem frente ao seu poder.

Os seringalistas, verdadeiros senhores feudais na selva, nunca tiveram, de fato, uma mentalidade empreendedora. Sua forma de gerir seus negócios estava muito mais para um pré-capitalismo rudimentar de típico de nobrezas decadentes. Não se preocupavam em aperfeiçoar as técnicas de trabalho em seus seringais. A situação como estava já os satisfazia. Hauriam enormes lucros de suas propriedades, gozavam de enorme conforto, tinham ao redor de si esposas, servos e amantes. Seus filhos estudavam nas melhores escolas do país e do exterior. No final de cada fabrico iam gastar suas fortunas nos centros econômicos do Brasil ou da Europa. Tinham o poder de colocar seus apadrinhados nas esferas de poder para que defendessem seus interesses frente ao Estado. Eram na verdade, uma casta parasita que desfrutava os privilégios de uma economia predatória e de enclave, cujos resultados estavam voltados para fora — não é assim o mesmo com o nosso decadente pólo industrial?

Durante a época da pesquisa o escritor detectou que ocorria uma flagrante mudança nas relações produzidas no seringal. Outrora predominantemente as relações do toco: em que o seringueiro tinha uma casa disponibilizada pelo patrão, assim como as estradas, equipamento e mercadorias para consumo e de sua família, assim deveria fornecer determinada quantidade de borracha por fabrico ao senhoril; entretanto, o toco vinha a transmutar-se em regime de gleba, onde o seringueiro passa a arrendar uma faixa de terra com sua família e, além de extrair a borracha, desenvolve a agricultura, pagando ao seringalista o aluguel desta em víveres ou em dinheiro.

A servidão humana, infelizmente, não era uma característica típica nos seringais da Amazônia, estendendo-se também para outros ramos da atividade capitalista, como por exemplo, o grande latifúndio monocultor do sul do Pará e sul do Amazonas, onde milhares de vidas são reduzidas e reles condição de coisa.

Quem sabe para a próxima edição o autor providencia um capitulo sobre a situação atual dos seringais estudados no livro, Juma e Três Casas, e outro sobre formas de organização sindical dos seringueiros na região estudada — a região do Rio Madeira, onde também nascera Carlos Teixeira.

Servidão Humana na Selva torna-se, desde seu lançamento, uma referencia obrigatória para quem estiver interessado em estudar os seringais, suas contradições, desmandos e crueldades com que essa variante do modo capitalista de produção subordina o homem.

De Cativos a Libertos: O processo de Abolição da Escravatura

abolicaoescravatura20Sempre que a palavra África reverbera em nossos ouvidos, somos assaltados por miríades de imagens, de sons e de cheiros característicos que invocam sempre pobreza, morte, fome, e guerras.

Imaginamos também que o povo africano é uno, ou seja, que apenas é dotado de uma única matriz cultural, como se um continente de mais de 30 milhões de quilômetros quadrados e que cobre mais de 20% da área total do planeta tivesse desenvolvido, nos mais de vinte mil anos de historia do homo sapiens, um único tipo e pensar e de expressar o mundo e de se relacionar entre os seus mais de oitocentos milhões de habitantes.

Durante os trezentos anos em que o regime escravista foi uma política de Estado, cerca de cinco milhões de negros vieram para o Brasil, das mais variadas etnias, eram bantos, iorubas, negros minas, jejês, angolanos, congos, nagôs… Eram povos com as mais diferentes culturas e formas de sociabilidade, uns tinham como especialidade o comércio, outros a agricultura, alguns eram povos nômades e outros eram senhores de poderosos impérios, como foram as cidades iorubás.

A chegada dos portugueses na África remonta ao périplo africano, iniciado no inicio do século XV, com a conquista de Ceuta, importante entreposto comercial mantido sob o poder do Império Otomano desde a Idade Média. Buscavam um caminho para as índias. Desejavam quebrar o monopólio comercial imposto pelas cidades italianas e chegar á fonte do ouro comerciado por tuaregues e mulçumanos do norte da África, na atual costa de Gana. Contudo, havia uma outra razão para essa expansão marítima, a motivação espiritual de converter as populações pagãs na África através da escravidão e isolar o Islã, grande rival do cristianismo.

Mas os lusos se enraizaram em certos lugares, como nas ilhas de Cabo Verde e Açores, onde procuraram implantar uma indústria açucareira capaz de aumentar-lhe os lucros, cujo braço de mão de obra principal foi o escravo.

Navios negreiros percorriam toda a costa africana efetuando o comércio de pessoas com os povos locais. O pioneirismo deve-se aos portugueses, mais tarde seguidos pelos espanhóis, franceses, holandeses e ingleses. Os lusos iam buscar pessoas em Luanda, Guiné, Benin, Congo, Benguela, e Senegâmbia para concretizar empresa colonial em constante expansão.

A produção de açúcar no Brasil e no Caribe exigiu que uma demanda determinada mão de obra a fizesse funcionar, assim como o algodão nos Estados Unidos, e posteriormente a tabaco na Bahia e o café no sudeste. A ocupação do novo mundo só foi possível com ajuda de mão de obra escrava, um dos sustentáculos fundamentais da economia colonial.

O comercio de escravos era efetuado com verdadeiros impérios, como com as cidades estados iorubas de Oió e Daomé, que tinham uma parceria comercial bastante lucrativa com os mercadores europeus. Muitas filhas dos chefes africanos chegavam a casar-se com os administradores e comerciantes, que simbolizavam alianças e privilégios comerciais.

As negociações para efetuar as relações comerciais eram demoradas e muitas vezes tensas. Os comerciantes tinham de oferecer objetos que tinham grande valor para os reis, como cavalos, armas, pólvora ou barras de ferro, pois eram objetos que tinham o papel de moeda entre muitas sociedades locais.

Os portugueses tinham um contato comercial maior com as regiões da alta guiné e cabo verde, negociando com os bambaras, bijagós, beafadas e pepéis, comprando escravos de etnias como os congoloses.

É necessário frisar que, inicialmente, no comércio de pessoas, muitos escravos eram prisioneiros das guerras entre os reinos, mas um negócio efetuado entre os comerciantes europeus e os reis africanos, e seguia as regras estipuladas das tradições dos povos locais. Apesar de sua influência dos homens da Europa na estrutura do comercio de escravos ser cada vez maior, em virtude da influencia que as mercadorias européias exerciam sobre a elite africana, a ajuda militar que os europeus davam aos reis nas guerras entre os reinos, somando as outras pressões externas, os povos do continente negro ficavam cada vez mais vulneráveis aos europeus.

Lembremo-nos que no inicio o comercio de escravos obedecia ás regras dos povos africanos e que boa parte dos escravos vendidos eram prisioneiros dos exércitos vencidos nas guerras entre os vários reinos africanos.

No inicio das navegações, Portugal interessava-se muito mais pelos povos africanos e com o oriente que pelo Brasil, isso se dava em virtude do comercio feito com os reinos africanos de escravos, ouro e marfim; quanto ao oriente, havia uma intensa troca comercial de seda e especiarias. A novo mundo só viria a ter relevância para os lusos nos anos de 1530, quando a chegada de franceses e holandeses, então a região começou a preocupar a coroa portuguesa.

Para ocupar a região foi usado o sistema das capitanias hereditárias, que consistia em conceder um determinado lote de terra a um nobre para administrá-la em nome do Rei, na condição de seu vassalo. A ocupação econômica foi efetuada usando o método dos engenhos açúcar, um método já experimentado em Cabo Verde e Açores, sustentado com mão de obra escrava provinda principalmente da África.

Quando a questão dos quilombos é abordada, sua imagem vem profundamente estigmatizada como um lugar totalmente marginal da sociedade escravista, como se estes não tivessem, de alguma forma, uma relação com o mundo que pretendiam “combater”.

Os quilombos na verdade estabeleceram uma gama de complexas relações com a sociedade colonial que variavam desde a completa ruptura, indo alojar-se nos mais distantes lugares, até uma extrema proximidade, quando estabeleciam o comércio ilegal ou chegavam mesmo a negociar com as autoridades.

Uma das características dos exércitos africanos era que a nobreza ocupava os lugares mais altos das patentes militares, embora a ascensão por merecimento também seja de alguma forma possível.

Mas o que isso tem a ver com os quilombos?

Simples. Boa parte dos escravos vindos para o Brasil eram soldados desses exércitos vencidos, muitos eram grandes generais derrotados, até mesmo reis que, liderando seu exercito, perderam a guerra a pagaram com isso sendo escravizados. Então estes negros cativos, quando rebelavam-se contra os senhores e fugiam, automaticamente organizavam-se em grupos de resistência que obedeciam a uma estrutura militar, com um governo centralizado, e um corpo militar extremamente disciplinado. O próprio nome quilombo, vem do acampamento militar dos imbagales, um povo extremamente guerreiro da costa a áfrica.

Os quilombos, como foi dito, estabeleciam uma série de relações com a sociedade, mesmo que estas relações fossem tidas como clandestinas pelo estado. Muitos deles estabeleciam o comércio com os viajantes que passavam pelas estradas ou com os índios das tribos próximas aos acampamentos. Os quilombolas chegavam mesmo a tecer relações com os habitantes da periferia das cidades, onde desciam a noite para trocar mantimentos. Nos quilombos no norte do Pará, por exemplo, seus habitantes costumavam trocar armas e pólvora com os franceses da guiana.

Podiam ser também agricultores, ou simplesmente extrativistas, dependendo de sua localização e das formas de interação com a sociedade. Alguns tinham apenas alguns poucos quilombolas numa única aldeia, outros chegavam a ter centenas de milhares de habitantes unidos numa confederação de tribos com um exercito próprio e um governo bem definido, como o foi o quilombo dos palmares, que durou sessenta anos, sua organização era similar aos povos bantos da angola.

Por isso, nesta semana em que comemoramos a libertação dos escravos, precisamos ter em mente de que o processo de abolição ainda não terminou, mesmo depois de mais de um século, pois os processos de lutas sociais são lentos e árduos. Mesmo tendo a liberdade formal, jurídica, boa parte dos afro-descendentes ainda não conquistara a liberdade plena, em seu mais completo, a cidadania do qual a elite econômica e dirigente deste país sempre gozou.

África está presente em nós, portanto, e para além dos preconceitos que ainda permeiam a nossa estreita visão sobre nossas origens, será apenas conhecendo a nós mesmos, nosso passado africano, que poderemos ser melhores do que somos.

Publicado em: às 21 de maio de 2009 em 14:06  Comentários (1)  
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Hobbes e a Crise da Sociedade Brasileira

Por ter vivido durante um dos períodos mais conturbados da história da Inglaterra – a guerra civil – teve sua teoria demasiado influenciada pelas conjunturas da época. Mas apesar disso, Thomas Hobbes (1588-1679) foi capaz de fazer notáveis contribuições para o pensamento político; contribuições essas que, em outras palavras, ditas pessoais, se encaixam perfeitamente em nosso panorama atual de uma iminente guerra civil, de disfunção completa do Estado e de sua cada vez mais avariada soberania.

Suas idéias sobre a natureza humana lhe custaram a antipatia tanto dos conservadores, por sua negação do direito divino no absolutismo; quanto dos republicanos, por ser claramente a favor do Rei; e até da igreja católica, que o acusou de impiedade e ateísmo. Até hoje o filósofo é considerado como uma nota dissonante nas ciências políticas, ao lado de Karl Marx, Nicolau Maquiavel e Jean Jacques Rousseau.

Não obstante, Hobbes, assim como Maquiavel, foi um dos pioneiros a desmistificar a teoria aristotélica de cuja tese afirma que o homem era um Animal Político naturalmente sociável e, em ordinário, bom. Mediante o pensamento do filósofo inglês, teses absurdas como essas configuram-se numa máscara que impede os homens de perceberem a verdade: a de que a vida é uma corrida incessante e laboriosa, que só finda em morte: estar continuamente retrógrado é miséria, sobrepor-se aos outros conota a felicidade, quem abandona a competição da vida; compreenda-se morto.

Então, na ausência de um poder coercitivo o suficiente para impor o respeito entre os homens, colocando limites a esse impulso egoísta de competição e dominação, a sociedade estaria imersa numa condição de “guerra permanente”, onde todos os homens conflitariam contra todos os demais na tentativa de preservar sua vida, suas propriedades e na cruzada incessante de glória e poder, mas essa propensão dos sujeitos à guerra é, segundo Hobbes, uma tendência levada pelas paixões e pela razão, na tentativa dos indivíduos em escapar da morte violenta. Ou seja, no estado primitivo de guerra, “não há sociedade” (…) “e a vida (…) é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”. É a morte, a fome, a miséria, a única coisa certa que eles poderiam esperar…

Primeira edição de Leviatã, de 1651

Para impedir que um estado de tamanha barbaridade continue e evitar que os homens morram pela morte violenta, os mesmo entram em pacto, transferem a sua capacidade de se defenderem para um ser superior, com força e inteligência maior, e capaz de por fim à barbárie. Criam um ser superficial, o grande Leviatã. Criado pelo medo e com plenos poderes, a função do grande monstro é a garantir trabalho a todos, distribuir eqüitativamente as terras, garantir que as leis sejam aplicadas a todos com justiça e igualdade, e impedir que o ímpeto egoísta e destrutivo dos homens se manifeste. Acresce também que o pacto social perde a validade se o soberano, Estado, perder a capacidade de manter a paz. Deste modo, os súditos, ou cidadãos, tem a liberdade de procurar outro líder ou instituir um novo contrato.

Se Hobbes vivesse sob as pautas de nossos dias e resolvesse adentrar no Brasil, o que diria? O que afirmaria este filósofo político acerca das contradições existentes nesta sociedade? Certamente afirmaria que “o Estado perdeu sua capacidade como eufemizador da violência, portanto o pacto não possui mais validade.” Estamos rapidamente caminhando para uma terrível convulsão social, e aquele miserável estado de natureza, até agora relegado à esfera econômica sob o nome de capitalismo, se “transformará numa guerra de todos contra todos”.

A máquina estatal tornou-se hoje totalmente insuficiente para nos assegurar aquilo que lhe foi confiado: garantir-nos a paz e a vida. Nossas taxas de homicídios são similares à de um país em guerra, como o Iraque; os serviços públicos apresentam ineficiências e o congresso nacional está eivado por interesses de classes mesquinhas que há quinhentos anos lucram com uma estrutura retrógrada da sociedade.

É chegada a hora, portanto, da instauração de um novo pacto, mas desta vez instituído pelos verdadeiros cidadãos, aqueles que realmente produzem as riquezas mas não podem desfrutá-las, pois estão relegados há uma estrutura de exploração que os deixam à margem do seu produto. É mais que urgente a necessidade de instituir um novo Estado, cuja alma artificial esteja em consoante com as demandas daqueles que são realmente o povo brasileiro, distribuir as riquezas nas mãos dos produtores, fazer a reforma agrária, e reformar as estruturas públicas, para que realmente sejam públicas e não reféns de pressões particulares ou classistas.

É mais que urgente este novo pacto, pois como disseram Marx e Engels: “os produtores não tem nada a perder, a não ser suas cadeias.”

Publicado em: às 8 de abril de 2009 em 16:43  Comentários (1)  
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Fundamentalismo Contra Darwin

Este é o ano em que se completaram dois séculos de nascimento do grande Charles Darwin. A ciência deveria estar em festa com tão importante data, pois foi este homem, um típico inglês anglicano, que moldara, ao lado de Copérnico, Galileu e Freud, os principais pilares do pensamento ocidental moderno.

Deveria, mas não está…

O autor de A Origem das Espécies com certeza está se revirando do túmulo ao se deparar com o negro panorama em que se encontra o pensamento científico atual. Em pleno século XXI, quando a ciência conquista tantas vitórias para a humanidade, como as pesquisas em células tronco, novas técnicas no tratamento do câncer e o aperfeiçoamento dos coquetéis contra a AIDS, também há, ao mesmo tempo, várias escolas confessionais que parecem ter dado uma guinada para as trevas da história, ministrando criacionismo em aulas de biologia.

Esta guinada do fundamentalismo teve o seu inicio na terra do Tio Sam e, infelizmente, se alastra com uma rapidez impressionante no Brasil.

Uma forma de se compreender melhor o fenômeno é ir buscar suas raízes históricas para responder á pergunta: Porque tantas escolas de confissão protestante vêem em Darwin um monstro a ser combatido?

Durante as primeiras décadas do inicio do século XX o capitalismo alcançou um desenvolvimento muito grande nos E.U.A, alterando brutalmente as relações sociais, os costumes e as representações de como a sociedade fazia de si mesmo; os ideais de bem-estar, consumismo, afrouxamento dos costumes religiosos, as lutas sociais inerentes a essas transformações e os avanços científicos da época, tomaram, aos poucos, o lugar reservado ás explicações religiosas.

Foi então que os grupos religiosos rurais, muitos destes migrados para as cidades, como metodistas, batistas, adventistas, presbiterianos e congêneres, diante de tamanhas transformações na vida social implementada pela modernização, precisaram criar uma nova forma de interpretar o mundo, com um novo código que lhes fosse possível entender as mudanças que os cercavam. Vendo suas antigas formas de religiosidade e regras sociais perderem terreno para a modernização, pregavam um recrudescimento das tradições como forma de escapar ao mundo moderno, tido como maligno.

Tendo seu marco o ano de 1910, quando foi lançada uma série de doze pequenos livros chamados Fundamentals Of Faith (itens fundamentais de fé) no qual havia os pontos chave para a doutrina do protestantismo anti-moderno: a ressurreição física de Jesus, a autenticidade de seus milagres, a prova de sua divindade e a absoluta autenticidade da bíblia. O termo Fundamentalismo, entretanto, só passou a ser usado quando o pastor batista Curti Lee Laws, um dos editores de um jornal protestante conservador Watchman Examiner, nos anos de 1920, cunhou-o para diferenciar os cristãos verdadeiros, ou seja, aqueles que iam até os fundamentos da fé, dos pecadores protestantes liberais, seus piores inimigos.

No fundamentalismo protestante não há espaço para a discussão da palavra escrita, a bíblia tem que ser tomada em seu sentido literal e absoluto, debates sobre sua compreensão a partir de seu sentido histórico, com base no conceito filosófico da hermenêutica, a fim de adaptá-la em seu sentido contemporâneo, como o faz a teologia liberal, são verdadeiras heresias para o protestante conservador. Verdades cientificas, como os pressupostos de Darwin, assim como pesquisas históricas ou arqueológicas que neguem alguns fatos bíblicos são tacitamente repudiados e vistos como artimanhas demoníacas; a ciência deve, então, ser aceita somente na medida em que retifica as coisas escritas no livro sagrado.

Uma ótima definição de fundamentalismo é a descrita pelos sociólogos Anton Shupe e Jeffrey Hadden, que classificam como um movimento:

“(…) que visa recuperar a autoridade sobre uma tradição sagrada que deve ser reintegrada como antídoto contra uma sociedade que se soltou de suas amarras institucionais”.

O berço do fundamentalismo protestante, os Estados Unidos, é onde parecem estar bem mais avançados na luta contra Darwin. Infelizmente, dezenas de estados americanos já aprovaram leis que simplesmente proíbem que o evolucionismo seja ensinado nas escolas e, em seu lugar, o criacionismo é pregado como a “explicação” mais plausível para a criação do mundo.

As associações de cristãos conservadores são extremamente fortes na terra do Tio Sam, basicamente filiados ao partido republicano, são tão poderosas a ponto de influenciarem a escolha de um presidente. Eles já até lançaram um documentário divulgando as suas idéias, chamado: Expllede: No Inteligence Allowed, que basicamente é uma denuncia de uma suposta conspiração para derrubar as idéias criacionistas — com se não fossem eles que pressionam cada vez mais o governo para que suas teses sejam impostas em todas as escolas nos Estados Unidos…

Aqui no Brasil, várias escolas confessionais já adotaram o criacionismo como assunto relevante para as aulas de biologia. Na televisão, o canal Boas Novas faz o seu papel divulgando programas produzidos nos Estados Unidos por canais conservadores que criticam as teorias de Darwin e defendem a tese do design inteligente.

A justificativa para a implantação do criacionismo nas escolas é a da liberdade acadêmica, ou seja, o aluno ter a oportunidade de conhecer o outro lado da moeda. Besteira… Ensinar que deus criou o mundo nas aulas de biologia é um tremando contra senso. Querem falar da bíblia, de Adão e Eva, que o mundo tem só seis mil anos e que os dinossauros foram extintos porque não entraram na arca de Noé? Então que usem as palestras de religião para isso. Aulas de biologia devem apresentar conteúdos baseados em observações empíricas, experimentos comprovados sob métodos reconhecidos pela comunidade especializada e capazes de serem reproduzidos em qualquer lugar do mundo — coisa que o criacionismo carece por completo…

A comunidade acadêmica deve estar atenta para esse preocupante fenômeno e mobilizar-se contra aqueles que querem misturar ciência com superstição, pois, se tiverem a chance, como bem dissera Marhall Berman, transformarão a democracia num regime teocrático policial.

A ofensiva conservadora não é apenas contra Darwin, mas contra todo o espírito cientifico e contra toda uma luta de séculos pela emancipação do pensamento.

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